Epístola aos Hebreus - parte IV


3 – CONTEÚDO E MENSAGEM

O conteúdo de Hebreus só pode ser devidamente apreciado em relação a seu propósito. O escritor considera as Escrituras Sagradas que chamamos de Antigo Testamento como plenas de figuras e antecipações sobre as autênticas realidades do propósito de Deus em Cristo Jesus. É assim que ele as usa continuamente para fundamentar seu tema a fim de ilustrá-lo, desenvolvê-lo e ainda conceder-lhe uma base solidamente revestida de autoridade divina.[1]

3.1. Conteúdo

O tema geral do texto parece nunca ter sido motivo de debates: a supremacia incontestável do Filho de Deus, Jesus Cristo. Supremacia esta que não é questionada, nem por seres angelicais nem por seres humanos. O autor apresenta uma série de correlações da “Nova Aliança” com a “Antiga Aliança”, sempre procurando demonstrar que Jesus Cristo é “superior” a aliança que o precedeu. Dessa forma, o autor afirma que o sacerdócio de Cristo é “melhor” do que o Levítico, o sacrifício oferecido por ele é “melhor” que aqueles recomendados na lei mosaica. Na verdade, até mesmo o propósito da revelação antecedente foi uma forma de apontar para Cristo e para todas as bênçãos dele provenientes. Esse tema da supremacia de Jesus não é, de forma alguma, um artigo abstrato; Carson salienta que o propósito é “repetidas vezes revelado pelos trechos parenéticos[2] (2.14; 3.7 – 4.11; 4.14 – 16; 5.11 – 6.12; 10.19 – 39; 12.1 – 13.17)”.[3] Estas parêneses advertem os destinatários a não se voltarem para as formas de piedade outrora conhecidas, correndo o risco de abandonar a fé cristã. Propomos então como palavras chave para Hebreus: Antiga Aliança, Nova Aliança, superior e melhor.
Fica patente desde o início que Hebreus abre diante de seus leitores a “glória da nova aliança em contraposição à antiga, e resume a magnitude do sacrifício de Jesus que sobrepuja a tudo, em contraposição a todos os sacrifícios do AT”, por intermédio da fórmula “quanto mais” (9.14). De uma maneira muito peculiar o texto enfatiza o caráter único da ação redentora de Jesus Cristo. O autor desenvolve essa “glória extraordinária da revelação de Deus na nova aliança por meio de três grandes ideias”. A primeira seção da carta (1.1 – 5.10), conforme esboçado anteriormente, apresenta a majestade da pessoa de Jesus, o Filho de Deus. Ele é superior aos poderes celestiais, aos mundos angelicais e, de igual modo, aos grandes personagens do passado hebraico: Moisés, Josué e Arão. Na segunda seção (7.1 – 10.18) o autor coloca a obra de Jesus ao lado desse pensamento e apresenta Jesus como o Sumo Sacerdote eterno e misericordioso. Na última seção (11.1 – 12.29) vem à tona a realidade de que o encontro vivo com a pessoa de Cristo e a experiência pessoal de sua obra de salvação devem tornar-se “eficazes na vida das pessoas, a saber, na fé e na santificação”.[4]
Portanto, claro está que as reflexões teológicas não são um fim em si mesmas. Ao contrário, elas apontam para alguns breves trechos em que o escritor chama a atenção dos fiéis que experimentaram Cristo em suas vidas, para o imenso alcance de sua responsabilidade. O alvo prático da carta assevera Laubach “são as exortações, que sucedem a cada uma das seções principais”.[5] Dando sequência à segunda seção, onde já expusera a superioridade do sumo sacerdócio de Jesus com relação ao santuário, o sacerdócio e os sacrifícios só Antigo Testamento, notadamente em Levíticos, ele adverte-os novamente para o pecado proposital e exorta os leitores a perseverarem firmemente na tribulação (10.19-39). Finalmente cabe ressaltar que o texto acrescenta à terceira seção, na qual tratara da fé e da santificação (11.12), exortações práticas sobre seguir a Jesus Cristo com fé (13). Outrossim, a estrutura da carta proposta no esboço traçado anteriormente nos revela que a descrição do sumo sacerdócio eterno de Jesus (7.1 – 10.18) constitui a peça central da obra.
Em sua exposição o autor mostra que a posição de Mediador ocupada pelo Sumo Sacerdote não é apenas importante. Muito antes a oração de intercessão do Sumo Sacerdote eterno perante Deus em favor de sua igreja (7.25), significa para ele que o auxílio decisivo no sofrimento, bem como o penhor de que os leitores alcançarão o alvo da glória.[6]
Diante disso, o esboço proposto por Dockery marca bem as ênfases no tema da superioridade:

I.        A superioridade de Cristo sobre os profetas do Antigo Testamento (1.1-3)
II.      A superioridade de Cristo sobre os anjos                           (1.4 – 2.18)
III.    A superioridade de Cristo sobre Moisés                             (3.1-19)
IV.    A superioridade de Cristo sobre Josué                                (4.1-13)
V.      A superioridade de Cristo sobre Arão                                  (4.14-10.18)
VI.   A prática da perseverança espiritual                                    (10.19 – 12.29)
VII. Últimas exortações                                                               (13.1-1-25)
(DOCKERY, 2000, p. 798)

Agora que a ênfase está bastante clara diante do estudante, podemos partir para alguns temas de grande relevância encontrados em Hebreus.

3.2. Exórdio – A Palavra Final de Deus por Meio de Jesus

O exórdio, vai aqui inserido para demonstrar que desde o início de seu texto, o autor de Hebreus destaca o caráter superior e peremptório da revelação divina manifestada em Jesus Cristo, o Filho de Deus. O versículo 4 serve de transição para abrir o caminho para o primeiro e longo argumento em favor da superioridade de Jesus: “ele é superior aos seres angélicos (1.5 – 14)”.[7]


3.3. A superioridade de Jesus em relação aos anjos, Moisés e Josué

O trecho inicial (1.4 – 4.13) já nos apresenta uma cristologia extremamente desenvolvida. Essa cristologia é aplicada à superioridade do Filho em relação aos anjos e a Moisés. Para desenvolver a argumentação da superioridade em relação aos anjos (1.4 – 2.18) o autor insere uma cadeia ou série de sete citações do Antigo Testamento em 1.5-14, que tem sua correspondência às designações do Filho na descrição introdutória de 1.1-3. A posição sobreangélica de Jesus Cristo como o Filho de Deus é, sem dúvida alguma, sublime exaltação, se pudermos lembrar de que, no pensamento judaico, anjos eram “filhos de Deus”.
Gundry ressalta também a ênfase dada pelo autor de Hebreus em que Cristo é superior aos anjos, a quem os seus contemporâneos judeus reputavam como mediadores da legislação mosaica, no Monte Sinai (Atos 7.53; Galátas 3.19); porque Cristo é o Filho divino e criador eterno, mas os anjos são apenas servos e seres criados (1.3 – 2.18).[8] Ressalta-se ainda que o fato de Ele ter se tornado menor que os anjos, mediante a encarnação e a morte, esta foi uma ocorrência meramente temporária. Era necessário que Ele se tivesse tornado um ser humano. Somente dessa maneira ele estaria qualificado como aquele que, por Sua morte, “pudesse elevar o homem decaído àquela dignidade que originalmente lhe fora propiciada por Deus, quando da criação. Por causa de Seu ato expiatório, Cristo foi revestido de imensa honra”. De acordo com Brown nos Manuscritos do Mar Morto, dois anjos, “que eram respectivamente os espíritos da verdade e da falsidade, dominavam toda a humanidade; os anjos eram os mediadores da Lei”.[9]
Muito significativo é o trecho de 1.8-9, onde, mencionando o Salmo 45.7-8, o autor faz Deus endereças a Jesus palavras que jamais dirigiu a um anjo: “O teu trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos […], por isso, ó Deus, te ungiu o teu Deus com o óleo da alegria”. Este consiste, portanto, em um dos trechos do Novo Testamento em que Jesus Cristo é chamado Deus. Parece que naquele tempo havia um perigo, entre alguns, de considerar os anjos superiores a Jesus, contudo é preciso cautela quanto a esse pressuposto entre o público destinatários primeiros de Hebreus. Com a intenção de confirmar a posição de Cristo, para o escritor “a superioridade em relação aos anjos pode ter parecido um esclarecimento”.[10]
Na opinião de Laubach o escritor apresenta os anjos como servos que Deus criou para ministrarem aos fiéis (1.14). Enquanto em 1.5, 6 o escritor destaca as características da dignidade – o Filho é o Primogênito, os anjos são entes que o adoram – em 1.7-12 ele ressalta as insígnias de serviço, ou seja, os anjos são servos de Deus (v.14), o Filho é o Rei e Criador do mundo, ele criou e também governa. As passagens do Antigo Testamento são referidas diretamente à pessoa e obra de Jesus Cristo. Jesus é o Filho (v.5), ele é Deus (v.8), e ainda, ele é o Senhor (v.10); ele serve como Profeta (v.2), como Sacerdote (v.3) e como Rei (v.8, 9). Em fim, é superior aos anjos. Perceba a densidade do texto. Se alguém pretende aprofundar-se em cada uma dessas afirmações está claro que se faz necessário um estudo particular.[11]
Carson demonstra que à esses argumentos segue a primeira seção em forma de advertência: se essa revelação é superior, é, pois, de vital importância que os leitores não se afastem do evangelho que a superioridade de Cristo traz, notadamente quando se tem em mente a condenação terrível que caiu sobre quem desconsiderou a revelação da Antiga e inferior Aliança (2.1-4). Eis aí então a admoestação: o autor insta para que os leitores originais da epístola não declinassem da sua profissão cristã.[12]
Em 2.5-18 Hebreus nos traz a verdade histórica da encarnação, humilhação e exaltação do Filho de Deus. Ao enfatizar que “Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés” o escritor fundamenta-se nos Salmos 8.7 e 110.1, que estão estreitamente interligados (1 Coríntios 15.25-27; Efésios 1.20-22). Por consequência não há quem possa esquivar-se da autoridade de Jesus, o Rei celestial. Cristo detém “poder sobre toda a carne” (João 17.2). Contudo, agora sua soberania universal ainda não está visível. Laubach menciona que o “ainda não” (v.8) aponta para o futuro e tem paralelos no Novo Testamento (Marcos 13.7; 1 João 3.2; Apocalipse 17.10, 12).[13] Essa expressão “ainda não” evidencia a tão conhecida tensão entre o cristianismo presente e o futuro. O caminho da Igreja, enquanto Corpo de Cristo, situa-se entre a humilhação e a exaltação de Jesus, já realizadas, e a irrupção iminente de seu domínio mundial, ainda não abertamente manifesto. Dessa forma, a vida dos fiéis com Cristo realiza-se, do ponto de vista humano, no abscôndito. A comunhão do discípulo com o Mestre será tornada evidente perante todo o mundo somente no momento de sua volta (Colossenses 3.1-4). É assim que, “antes da chegada das dificuldades, da aflição e da perseguição de fora, bem como das tribulações de dentro” o escritor busca inculcar em seus leitores a verdade de que também Cristo passou pelo sofrimento até a glória (2.9). Para seus seguidores existe somente esta mesma trajetória.
Na posição de divino Filho sobre a casa de Deus, Jesus Cristo é superior a Moisés, um servo na casa de Deus (3.1-6). A exortação, pois, visa a evitarmos incorrer no juízo de Deus, como resultado da incredulidade. A geração de israelitas que saiu do Egito sob a liderança de Moisés, mas morreu no deserto por causa da indignação divina contra a rebelião deles serve como uma terrível ilustração e ainda um severo exemplo de advertência (3.7-19). Isto é exposto mediante a citação de Salmos 95.7-11 (Hebreus 3.7-11) e também da relação entre o descanso a que os leitores do Salmo são convidados, qual seja, o descanso intrínseco à entrada na terra da Canaã e até mesmo o descanso que Deus desfruta desde a época em que concluiu sua obra criadora inicial (3.7 – 4.11).[14]
O autor enfatiza que Cristo é melhor do que Josué. Embora Josué tenha feito Israel entrar na terra de Canaã, Cristo conduzirá aos fiéis ao lugar de repouso eterno, nos céus, onde Deus descansa de Sua obra criativa (4.1 – 10). Ele ressalta que Josué não conseguiu fazer Israel entrar nesse repouso celestial; Para tanto ele menciona que muito tempo depois de Josué ter vivido e morrido, Davi falou do lugar de repouso de Israel como lugar ainda não atingido (Salmo 95.7 – 8). A comparação entre Jesus e Josué é bem mais impressionante no Novo Testamento grego, pois o apelativo hebraico "Josué" assume a forma "Jesus", no grego.[15] Vale lembrar que o texto grego desconhece a distinção entre o nome próprio Josué, do Antigo Testamento, e o nome próprio Jesus, do Novo Testamento.
Dando prosseguimento à sua argumentação, o autor exorta os seus leitores a entrarem no descanso celestial, mediante sua fidelidade à sua profissão da fé cristã (4.11-16). Ao enfatizar a total suficiência da obra expiatória de Jesus elimina qualquer implicação de que a continuação das boas obras, na vida do crente, merece a salvação. Entretanto, as boas obras e o desviar-se da apostasia são coisas necessárias para demonstração da genuinidade da profissão de fé cristã. O versículo 12 “contém a famosa comparação da Palavra de Deus com uma espada de dois gumes, que penetra e desnuda o ser mais interior do homem”. É assim que os discípulos de Cristo devem “provar que sua externa profissão de fé se origina de uma realidade interna”.[16]




[1] DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 1348.
[2] O material parenético é de origem judeu e helenístico. Com efeito, o cristianismo nascente teve necessidade de enraizar-se no cotidiano concreto e isso suscitou não poucos problemas para os missionários do Evangelho, pois, para a maioria das situações não havia “um preceito do Senhor” (1 Coríntios 7,25). A comunidade assumia os costumes então vigentes e a eles imprimia um espírito cristão. O material parenético inclui os catálogos de vícios e de virtudes, a moral familiar e também os catálogos de deveres, normalmente relacionados à moral. Prediz diretrizes para a boa conduta no cotidiano do discípulo de Cristo. Para maiores detalhes veja em SILVA, C. M. D. da. Metodologia de exegese bíblica. São Paulo: Paulinas, 2009, p. 185 – 229 “Gêneros Literários”.
[3] CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 434.
[4] LAUBACH, F. Op. Cit., p. 27.
[5] Idem, p. 27.
[6] Ibidem.
[7] CARSON, D. A. Op. Cit., p. 435.
[8] GUNDRY, ROBERT H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 248.
[9] BROWN, R. E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 892, 893.
[10] BROWN, R. E. Op. Cit., p. 893.
[11] LAUBACH, F. Op. Cit., p. 41, 42.
[12] CARSON, D. A. Op. Cit., p. 435.
[13] LAUBACH, F. Op. Cit., p. 55.
[14] CARSON, D. A. Op. Cit., p. 435.
[15] GUNDRY, ROBERT H. Op. Cit., p. 249.
[16] GUNDRY, ROBERT H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 249.

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