Epístola aos Hebreus - parte II

I.1.1. Autoria

No corpo do texto mesmo não encontramos indicação alguma a respeito de seu autor. Ao contrário da maioria dos escritos do Novo Testamento, o escritor não se identifica. Disso resulta que chamar o texto de Hebreus de carta ou epístola já é bastante controverso. Todas as tentativas de identificar o autor de Hebreus têm sido infrutíferas. E o fato de ser anônimo dificulta a localização do autor.
Como observamos nas cartas encontradas ao longo do cânon do Novo Testamento, é comum que o texto tenha já em sua introdução a identificação de seu autor(-es). Em seguida a introdução menciona seus destinatários e termina com uma saudação e ação de graças – há pequenas variações, mas normalmente o padrão é seguido. Da mesma forma o final das cartas geralmente contém alguns votos e saudações finais. Neste caso o texto de Hebreus termina em forma de carta.
Do que foi dito, podemos concluir que o texto de Hebreus tem a introdução de um livro, em seu desenvolvimento segue a forma de sermão – parênese – e termina em forma de carta. É, pois, um texto muito peculiar. Isto já nos serve de alerta para o cuidado devido ao fazer afirmações ou chegar a conclusões precipitadas.
Uma rápida observada nos escritores cristãos – não canônicos – primitivos também não fornece testemunho unânime na questão da autoria:
1.    Tertuliano atribui a autoria a Barnabé. Tal afirmação carece de testemunho. Ressaltamos, contudo, que a Epístola de Barnabé – início do século II – tem o estilo alegórico alexandrino similar ao de Hebreus.
2.    Clemente sugeriu que o apóstolo Paulo a escreveu em hebraico, sendo traduzida para o grego por Lucas.
3.    Orígenes admitia que os pensamentos originais eram do apóstolo Paulo, mesmo que a forma de escrita e a linguagem final não o fossem.
4.    As conexões do texto ao nome de Paulo contribuíram para que lhe fosse conferida autoridade apostólica. Dessa forma, desde cedo muitas cópias passaram a circular com o título “A Epístola de Paulo aos Hebreus”.
5.    No texto mais antigo de que dispomos hoje – o Beatty[1] Papyrus II p46 (inicio do século III) – o documento faz parte da obra paulina, logo depois de Romanos.[2] No entanto, a aceitação desta obra como sendo de autoria paulina aconteceu mais lentamente na Igreja ocidental. Em Alexandria, assim como em Roma, nas listas oficiais do final do século IV e começo do século V, Hebreus fazia parte do “corpo paulino”, sendo às vezes situada antes das cartas pessoais – ou pastorais. Gradualmente o nome de Paulo foi introduzido no título da obra, aparecendo já na Vulgata.[3]
6.    Outras sugestões para autoria incluem os nomes de Apolo, Silas, Áquila (ou Prisca e Áquila) e Filipe, o evangelista.
7.    Para Lutero Apolo era a sugestão mais aceita. A julgar pelo texto de Atos 18:24-28 ele seria mesmo o tipo de homem que poderia compor tal texto. Apolo era judeu, nativo de Alexandria, eloquente e versado nas Escrituras Hebraicas. Esta hipótese atraiu grande número de seguidores. Mais uma vez, não há evidência alguma para tal afirmação.
8.    A maioria dos eruditos contemporâneos não aceita a autoria paulina.[4]
9.    Hale discorre bastante a respeito dos possíveis autores e quais as justificativas. Ele menciona: Paulo, Lucas, Clemente de Roma, Barnabé, Apolo e Silvano. Hale lembra que já Eusébio de Cesaréia, em sua História Eclesiástica vi. 25.11.14, dizia que “quem escreveu a epístola só Deus sabe certamente” e, para concluir, registra a afirmação contundente de B. F. Wescott; Este último escreveu que qualquer tentativa de colocar um nome para o autor é devida à “má vontade de confessar francamente nossa ignorância sobre uma questão que excita nosso interesse”.[5]
10.    Portanto, talvez seja mais sábio contentar-se em dizer “não sabemos” e, satisfazer-nos com a ironia de que o orador mais sofisticado e o mais elegante teólogo do NT é um desconhecido:
“Para empregar sua própria descrição de Melquisedec (Hb 7,3), o escritor de Hebreus permanece sem pai nem mãe, nem genealogia. A qualidade de seu grego e seu domínio das Escrituras em grego sugerem que ele era um judeu-cristão com boa educação helenística e algum conhecimento das categorias filosóficas gregas. Seu estilo hermenêutico alegórico tem paralelos em Fílon e na interpretação alexandrina, mas esta era ensinada em outra parte, de modo que a alegação de que o escritor de Hebreus originava-se de Alexandria não é provada”.[6]
Por último, mas não menos importante, é preciso admitir que o próprio texto, aponta para uma autoria “não-apostólica”. A perícope de 2:2-4 nos fornece uma pista valiosa: Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas. Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição, como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram; testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade? (Hebreus 2:2-4). Grifo Nosso.
Fiquemos com a opinião de Orígenes que, sendo um dos mais letrados da era patrística, “contentou-se em deixar no anonimato o verdadeiro escritor […] observando que somente Deus sabe quem escreveu Hebreus”.[7]


I.1.2. Origem e data

Uma vez que a autoria é desconhecida, a origem é mais desconhecida ainda. A única pista explícita é a saudação aos leitores, enviados pelos “da Itália” (13:24). É bom relembrar algo da presença de judeus romanos em Jerusalém durante o Pentecostes (Atos 2:10). Contudo, a saudação em 13:24 e o pedido em 13:19, quando associados a libertação de Timóteo, enfim, o trecho de 13:23-24 parece sugerir que o autor estava em Roma. Mesmo assim, não se pode afirmar ao certo a localidade correta.
O mesmo pode ser afirmado com relação à data. Contudo, Carson propõe algumas sugestões para este debate. Em primeiro lugar, destaca-se o fato de os destinatários pertencerem à segunda geração de Cristãos (2:3) – já mencionado acima.[8]
As passagens em 10:25 e 12:4 esclarecem que a igreja estava sendo provada. Poderia ser as perseguições movidas por Nero, ou os contratempos da guerra judaico-romana. Descobre-se ainda que Timóteo havia sido encarcerado, mas fora solto (13:23). A causa de sua prisão não se sabe.
Alguns sugerem as datas entre os anos de 66 e 69 d.C., quando os judeus de Alexandria e da Palestina se rebelaram contra o governo de Roma. De outro lado um limite pode ser estabelecido por I Clemente 36:1-5 – composta possivelmente no final dos anos 90 – que faz eco a Hebreus 1:3-5, 7, 13.[9] A data mais sugerida para a redação de Hebreus é entre 60 e 90 d.C. A menção de Timóteo (13:23) aponta para uma data limite não muito posterior à proposta atrás.

I.1.3. Os destinatários

Quem são os destinatários do texto? De acordo com os documentos mais antigos o documento é dirigido “Aos Hebreus”. Hale menciona que Tertuliano (c. 200) conheceu o título correspondente em latim, Ad Hebraeos. Todavia, esta ainda é uma expressão vaga.[10] Um hebreu seria um israelita de nascimento e, segundo a religião, um descendente de Abraão (Filipenses 3:5; 2 Coríntios 11:22). Endereça-se aos hebreus da Palestina, ou de outro lugar? O autor nos indica que os crentes ainda não haviam resistido até o sangue (12:4). É bom lembrar que em Jerusalém houve perseguições cruéis contra os discípulos de Cristo. Estevão ter sido apedrejado até a morte é uma evidência de que, ao menos a igreja da capital, resistira até o sangue. Dessa forma, a exortação (12:4) não caberia à igreja de Jerusalém; Contudo, poderia ser qualquer outra cidade da região da Palestina.
É preciso observar ainda que os irmãos de Jerusalém eram, em geral, pobres. Em outros documentos do Novo Testamento encontramos as igrejas gentílicas socorrendo-os em suas necessidades. Da leitura de Hebreus, a impressão que se tem é que os destinatários eram ricos, até mesmo tinham condições de hospedar estranhos (13:1-2, 16). Pelo menos uma vez eles serviram aos pobres (6:10).
Mais uma vez estamos diante de um enigma. Entretanto, ao julgar pelo teor de Hebreus, podem ser levantadas algumas conjecturas no que diz respeito aos primeiros leitores – aos quais dirigiu-se o autor. É evidente que o destino se refere a judeus cristãos helenistas da diáspora. Dificilmente seria possível identificar os destinatários como judeus convertidos na Palestina de fala aramaica, a quem se dirige o termo “hebreus” encontrado em Atos 6:1.
Laubach chama a atenção para a realidade histórica de que já era de conhecimento de Tertuliano e dos professores da escola em Alexandria, o título que encabeçava o documento “aos Hebreus”.[11] Na opinião de Carson o autor tem em mente um grupo muito específico.[12] A exortação encontrada em 5:11-14 sugere um determinado grupo de fiéis “no âmbito de uma comunidade, do qual estão excluídos os irmãos dirigentes, os líderes da comunidade”.
Por volta do ano 200, o titulo “Aos Hebreus” aparece no Beatty Papyrus II (p46). Este documento já estava em uso no Egito e no Norte da África e, além disso, nenhum outro título jamais apareceu como destinação. Com base no conteúdo algo sobre o ambiente vivencial dos destinatários pode ajudar o entendimento. Alguns pontos mais relevantes podem ser destacados:
a) No início, na avaliação do autor, eles foram devidamente iluminados […]. A comunidade recebeu a mensagem cristã de evangelizadores cuja obra fora acompanhada pela realização de milagres. A atividade do Espírito Santo era parte daquela experiência (Hb 2,3-4; 6,4-5) […] os destinatários valorizavam a riqueza religiosa do judaísmo. […] b) A seguir (quando?), os cristãos foram afligidos por um tipo de perseguição, hostilidade e/ou maus-tratos (Hb 10,32-34). Foram privados de propriedades, e alguns foram jogados na prisão.
c) No tempo em que Hebreus foi escrita, a crise de perseguição ativa parecia ter passado, mas existia contínua tensão e desânimo, bem como perigo futuro. Ofensas da parte dos de fora constituíam ainda um problema (Hb 13,13). […] Aparentemente, os afetados […] tinham parado de reunir-se em oração com outros cristãos (10,25).[13]
Muitas outras hipóteses e conjecturas têm sido levantadas. Desde a região de Jerusalém até Roma podem ser tidas como comunidades destinatárias. Dessa forma, o que emerge da análise a respeito dos destinatários é muito vago; as comunidades cristãs de quase todas as cidades do mundo antigo, em um ou outro período, vêm sendo sugeridas como destinatários de Hebreus.






[1] Ou Papiro II de Chester Beatly conforme alguns manuais. Veja em HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 347.
[2] CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 437.
[3] BROWN, R. E. Op. Cit. p. 904.
[4] DAVIDSON, F Op. Cit. p. 1345.
[5] HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, pp. 338-347.
[6] BROWN, R. E. Op. Cit. p. 906.
[7] BROWN, R. E. Op. Cit. p. 905.
[8] CARSON, D. A. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 441.
[9] BROWN, R. E. Op. Cit. p. 907.
[10] HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 347.
[11] LAUBACH, F. Carta aos Hebreus: comentário esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2000, p. 20.
[12] CARSON, D. A. Op. Cit. p. 444.
[13] BROWN, R. E. Op. Cit. p. 908, 909.

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