2. Evangelhos: questões introdutórias - I

II. EVANGELHOS: QUESTÕES INTRODUTÓRIAS


Com Marcos surgiu um tipo de escrito que acabou por fazer sucesso na literatura cristã do primeiro século: o Evangelho. Ele foi imitado pelos outros três Evangelhos (Mateus, Lucas e João) e por autores apócrifos até o século IV. Ao reunir tradições esparsas em um relato de natureza biográfica consagrado à vida de Jesus, Marcos fez uma obra inédita. Até então, a tradição cristã só conhecia sequências narrativas limitadas – a história da Paixão, por exemplo – coleções de ditos – logia, ou as cartas de Paulo. O primeiro evangelista (Marcos) se descobre criador de um gênero literário. Perguntamos: o Evangelho é um gênero literário ímpar na literatura, é um fenômeno único, ou podemos afiliá-lo a outros gêneros literários que circulavam na época?[1]


Na origem, euvagge,lion – euanguélion (a boa-notícia) não indica um livro, mas um anúncio favorável ou a mensagem transmitida por esse anúncio favorável. No grego extra bíblico, euvagge,lion anuncia as vitórias militares e os grandes feitos do Império. Sua significação religiosa intervém no contexto do culto do imperador. Uma inscrição de Priéne (Ásia Menor), datada de 9 a.C., definiu assim o aniversário do imperador Augusto: “o dia do nascimento do deus foi, para o mundo, o início das boas-novas (tw/n euvagge,liw/n – tôn euanguélion) que chegaram através dele”.[2]
No Antigo Testamento era significativa a forma verbal e não a nominal. O termo hebraico bissár (evangelizar) já trazia em seu bojo o conteúdo alegre do anúncio (frequentemente corroborado pelo adjetivo “bom”), como o nascimento de um filho (Jr 20.15), a vitória sobre os inimigos ou a morte do adversário (1Sm 31.9; 2Sm 1.20; 18.19,20,31). De forma muito rápida o verbo adquiriu um significado teológico, como proclamação da salvação na assembleia de culto dado por Deus, que põe na boca daquele que ora um cântico novo (Sl 40.4,10).[3]
A versão grega do Antigo Testamento (a LXX[4]) aplica o verbo “anunciar uma boa-nova” (euvaggeli,zw - euanguelízo) à proclamação das vitórias de Deus para Israel. Isaías usa o termo para designar o anúncio da salvação escatológica (Is 40.9; 52.7; 60.6; 61.1). Este último texto é citado por Jesus na resposta à questão messiânica do Batista: “a boa-nova é anunciada aos pobres” (Mt 11.5; Lc 7.22).[5]
O apóstolo Paulo herdou um uso urdido pela tradição cristã helenista: euvagge,lion designa a proclamação da boa-nova da salvação em Jesus Cristo (1Ts 1.5; 1Cor 15.1; Rm 1.1,9). Evangelho assinala, portanto, o anúncio do kérygma e não o seu veículo literário; esse anúncio é “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Toda a pregação do apóstolo, aliás, pode ser concentrada na palavra euvagge,lion (Gl 1.11). Quando Marcos inaugura sua narração com essa palavra: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1), ele não indica o início de seu livro, mas o início da boa-nova. Nenhum dos quatro Evangelhos se autodenomina por essa palavra.[6]
Na realidade, somente na metade do século II é que euvagge,lion foi aplicado ao escrito portador da boa-nova. A Didaché designa assim o Evangelho Segundo Mateus (11.3; 15.3s.), II Clemente 8.5 o de Lucas. Justino Mártir usa pela primeira vez a palavra no plural para designar os escritos que guardam a memória das palavras e dos atos de Jesus, de sua Paixão e de sua ressurreição (Apologia 1.66.3). As mais antigas notícias que temos da intitulação dos Evangelhos, que emanam dos copistas e não dos autores, datam de fins do século II e são provenientes de papiro (î66), dos escritos de Ireneu (Contra as heresias 3.11.10) ou do cânon de Muratori10. O uso parece remontar mesmo ao fim do primeiro século, por causa da multiplicação dos Evangelhos nas comunidades. É de notar que mesmo então os Evangelhos foram denominados euvagge,lion kata. – euanguélion kata, Evangelho segundo (Mateus, Marcos, ...). O uso singular (que contrasta com os evangelhos greco-romanos e o uso plural da Septuaginta) e a modalidade kata (segundo) conservam traço do sentido inicial; o Evangelho não é de Mateus ou Marcos, mas transmite a boa-nova na linguagem segundo Mateus ou Marcos. A nuança é importante. Vai de par com o reconhecimento canônico de um Evangelho quadriforme, em vez e no lugar dos quatro relatos concorrentes entre os quais a Igreja primitiva teria tido de escolher.[7]
Junto à diversidade de literatura greco-romana dos séculos imediatamente anteriores e posteriores ao Senhor Jesus Cristo, encontravam-se muitos tipos de biografias, como “a Vida de gregos e romanos famosos, de Plutarco; A vida dos Césares, de Suetônio; A vida de Apolônio de Tiana, de Filostrato; e A vida dos antigos filósofos, de Diógenes Laércio”. Essas propostas como contraposição aos Evangelhos possuem tonalidades divergentes.[8]

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Identificamos o primeiro estágio na formação do Evangelho com o ministério público ou a atividade de Jesus de Nazaré. Alguns autores chamam de “momento histórico”.[9] Desssa forma, este estágio está situado na primeira terça parte do século I d.C.
O Senhor Jesus realizou coisas notáveis, proclamou oralmente sua mensagem e interagiu com outros, como João Batista, por exemplo, e outras figuras religiosas. Jesus escolheu companheiros (discípulos) que viajaram com ele, viram e ouviram o que ele fez e disse. Tudo aquilo que eles se recordavam de suas palavras e ações proporcionaram o “material sobre Jesus” em estado bruto. Estas recordações eram já seletivas, uma vez que eles se concentraram naquilo que dizia respeito à proclamação de Deus por parte de Jesus, e não às muitas trivialidades da vida ordinária. Em um nível prático, é importante que tenhamos sempre presente que essas são memórias daquilo que foi dito e feito por um judeu que viveu na Galileia e em Jerusalém na década dos anos 20 do século I. A maneira de falar de Jesus, os problemas que ele enfrentou, seu vocabulário e suas perspectivas (estruturas de pensamento) eram próprios daquele tempo e lugar. Muitos erros nas tentativas de entender a Jesus e muitas aplicações falsas de seus pensamentos provêm do fato de que os leitores dos Evangelhos removem-no do espaço e do tempo, e imaginam que ele estava tratando de problemas que, na verdade, nunca enfrentou. Podem dar-se formas eruditas de representar mal a Jesus impondo sobre ele categorias que realmente não se aplicam a sua pessoa, por exemplo, a do camponês ou a daquele que lutou pela liberdade política.[10]
O segundo estágio na formação do evangelho refere-se à pregação apostólica sobre Jesus. É o momento da tradição. Trata-se do kérygma apostólico. Palavra que evoca o anúncio solene do arauto depois de uma retumbante vitória, a espontaneidade e a difusão rápida de um acontecimento, o grito forte para tornar pública a oficial notícia (At 2.36,24).[11] Este estágio situa-se na segunda terça parte do século I d.C.
Aqueles que haviam visto e seguido a Jesus viram confirmado o seguimento deles pelas aparições após a ressurreição (1Co 15.5-7). Chegaram assim a ter uma fé plena no Jesus ressuscitado como a pessoa através da qual Deus manifestou seu absoluto amor salvífico por Israel e finalmente por todo o mundo – uma fé que verbalizaram por meio de títulos que expressavam sua crença (Messias/Cristo, Senhor, Salvador, Filho de Deus, etc.). Aquela fé pós-pascal iluminou as recordações do que eles tinham visto e ouvido antes da ressurreição; assim, eles proclamaram as obras e as palavras de Jesus com mais plenitude de significado. (Os leitores modernos, acostumados com uma informação factual, sem implicações pessoais, necessitam reconhecer a atmosfera bem diferente da pregação cristã primitiva.) Dizemos que esses pregadores são “apostólicos” porque se viram a si mesmos como enviados (avpeste,llein - apostellein) pelo Jesus ressuscitado, e porque sua pregação muitas vezes é descrita como proclamação querigmática (ke,rugma - kérygma), cuja finalidade era atrair outros à fé. Finalmente, o círculo dos pregadores missionários alargou-se para além dos companheiros originais de Jesus, e as experiências de fé dos novos convertidos, como Paulo, enriqueceram o que foi recebido e proclamado.[12]
Outro fator que exerceu sua influência nesse estágio do desenvolvimento foi a necessária adaptação da pregação aos novos ouvintes. Jesus foi um judeu Galileu da primeira terça parte do século I, que falava aramaico; contudo, em meados desse século, seu evangelho estava sendo pregado a judeus habitantes em grandes cidades e aos pagãos em grego. Essa mudança de língua implicava tradução, no mais amplo sentido da palavra, isto é, uma remodelação do vocabulário e dos padrões que faria a mensagem inteligível e viva para os novos ouvintes. Por vezes, esta nova fraseologia (que deixou traços visíveis nos Evangelhos escritos) afetou detalhes secundários. Por exemplo, em Lc 5.19 menciona-se um tipo de telhado familiar aos leitores gregos em contraste com o telhado palestino no qual foi feita uma abertura do qual se fala em Mc 2.4.[13]
O terceiro e último estágio na formação do evangelho refere-se aos Evangelhos escritos. Trata-se do momento da redação, a última fase da formação do evangelho e diz respeito ao trabalho do evangelista.[14] Agora estamos na última terça parte do século I d.C., aproximadamente.
Ainda que na metade do período anterior, enquanto o material sobre Jesus era objeto de pregação, devem ter aparecido algumas coleções primitivas escritas (perdidas atualmente), e não obstante a pregação baseada na conservação e desenvolvimento oral do material sobre Jesus tenha continuado até o século II[15], a época entre 60 e 100, aproximadamente, foi o momento em que se compuseram os quatro Evangelhos canônicos. Com respeito aos evangelistas ou autores/redatores, conforme tradições provenientes do século II e refletidas nos títulos que precedem os evangelhos, por volta do ano 200 ou até mesmo antes, dois destes eram atribuídos a apóstolos (Mateus e João), e dois a homens apostólicos, ou seja, companheiros dos apóstolos (Marcos [companheiro de Pedro] e Lucas [companheiros de Paulo]).[16]
Resta dizer ainda que os Evangelhos foram organizados numa ordem lógica, não necessariamente numa ordem cronológica. Os evangelistas se mostram como autores que dão forma, desenvolvem, revisam o material transmitido sobre Jesus e, como teólogos, orientam este material para um fim determinado.[17]




[1] MARGUERAT, Daniel. Novo Testamento: história, escritura e teologia. São Paulo: Edições Loyola, 2009. p. 35. Cf. BROWN, Raymond E. Introducción al Nuevo Testamento I: cuestiones preliminares, evangelios y obras conexas. Madrid: Editorial Trotta, 2002, p. 172.
[2] MARGUERAT, Daniel. Op Cit., p. 36.
[3] MARCONCINI, Benito. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 5.
[4] Septuaginta.
[5] MARGUERAT, Daniel. Op Cit., p. 36.
[6] Idem. p. 36.
[7] MARGUERAT, Daniel. Op Cit., p. 37.
[8] BROWN, Raymond E. Op Cit., p. 163.
[9] MARCONCINI, Benito. Op Cit., p. 37.
[10] Idem. p. 169.
[11] MARCONCINI, Benito. Op Cit., pp. 55-57.
[12] Ibidem. p. 170.
[13] BROWN, Raymond E. Op Cit., p. 170.
[14] MARCONCINI, Benito. Op Cit., p. 69.
[15] Por volta de 115 d.C. Papias, bispo de Hierápolis, procurava por aqueles que tinham estado com a geração apostólica mais velha ou seus sucessores imediatos, buscando tradição oral independente dos evangelhos escritos, que ele também conhecia (HE 3.39.3-4).
[16] BROWN, Raymond E. Op Cit., p. 171.
[17] BROWN, Raymond E. Op Cit., p. 172.

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